Quem somos? De que somos feitos? Existirá mesmo uma fronteira, uma linha delimitada que separe cada um de nós daquilo e daquele que é Outro? Construir-se-á a nossa individualidade nesta delimitação? Creio que não.
Onde termino eu e começa a a “individualidade” de todos aqueles com quem me cruzei, cruzo e cruzarei? Onde começo eu?
Sustentar-me-ei sozinha? Saberei o que sou para mim sem que os outros que amo me devolvam uma imagem de mim própria?
Não seremos todos fruto dos jogos de espelhos em que entramos mesmo antes de entrarmos no Mundo?
Hoje senti a necessidade de celebrar o dia de aniversário de alguém que já partiu. Alguém que nunca conheci mas que, de certa forma, entrou com uma estranha intensidade naquilo que entendo como “eu”.
Pela simples razão de que, para o seu irmão, eu sou de algum modo – estranhamente intenso também – um reflexo seu. Por essa razão pedi autorização para“publicar” aqui alguns textos que não foram publicados. É uma singela homenagem à existência de alguém que, não tendo conhecido, sinto conhecer, e que ajudou na construção de uma das mais bonitas amizades da minha vida.
À Vida da Ana, onde quer que ela esteja agora.
Excursos sobre o medo
Ana Maria Ferreira
Cascais, Dezembro 1995
I (Heróis)
O medo faz, às vezes, o pacto com a nostalgia
e o perfil da coisa tem olhos de gente, pode estar
num casamento, ser. É um modo, uma fórmula,
ninguém sabe bem onde bolsa a virtude e onde está
o segmento do corpo ou da alma. Ele está silencioso:
o sorriso, a mão que se estende solidária e aérea, o esgar do amor.
Terríveis as composições, essas fórmulas matrizes,
essa podagem de folhas feitas mármore.
Porém, é com esses segmentos de imagem
tosca que se fazem os heróis. O medo cria, às vezes,
com a nostalgia, pérfidas imagens.
III (Os Ácaros)
Curioso pensar que a virose é o medo
enlatado num ácaro em que o médico é a fada
fugaz do seu saber. Morrer,
é assim como ter muitos ácaros na carpete,
e todos, por fim, dizerem que na mente,
a constipação tem o mesmo enigma do acaso.
IV (A Varanda)
Tenho um medo de morte, minha amiga, de não saber
o que te gerou, qual o plasma, a semente, a virilha
que assim te quis única e a mim me amordaçou.
Não relato de ti porque não sei dizer o que não sei, tu és a amiba,
a biopsia do intestino delgado da minha raiva
e saber-te, era mais complicado do que saber de mim
e eu destituí-me de morgado. No pouco que desperta,
nessa flor de Lys que teima em crescer sem água
numa varanda sem história nem paisagem, talvez aí?
V (O Cais)
Uma milha marítima sobrou nos meus pés
e o Oceano já não é o Oceano. Limito o medo
ao cais, faço aí o entreposto dos aromas, paga-me
quem pode e os outros passam livres
por não saberem que um pouco de mar a menos,
basta para perder o cais e o destino.
VI (O Berço)
Em uma singela praça de coreto onde nem a música,
sequer, se adivinha, faço diariamente o berço
enquanto o medo me coroa de rainha. Aí eu sei
que cada passo não deslustra, aí a morte tem uma taberna,
aí, ainda, desconheço qual a bala que pode furar
quem sempre a espera. Enfim, praças e coretos
são apenas esquadrias da vida, sequer memórias,
porque lembrar é como perder no casino
o plasma do começo, a história.
VII (O Nome)
O medo é a metáfora que não come o corpo
mas o rosto que diz de si a sua alma.
Nele, no olhar, na boca, no nariz que é o pior
bocado, porque secundário como é, desiste,
nada se esconde. O medo constrói o nome.
VIII (Outubro)
Há certas noites em Outubro em que a chuva
rebenta, vertical, molha o nosso espanto e faz
dos dedos que seguram o cigarro uma imensa solidão.
Como voltar atrás, como saber o que está perdido?
O cigarro, a chuva, e esse Outubro que inicia,
a monção do medo estão, obviamente, a chegar
à outra ponta do segredo e quando aí se chega
não se pode escrever mais. Relembro.
IX (O Bar)
Não fazes a mínima ideia do que é o medo
quando o sol se vai. O vidro reflecte a nossa imagem
e não existe nem diálogo, ou prazer, ninguém.
Bebe-se o que existe e quem morreu primeiro
vence. E como é tudo mais complexo, os vivos sofrem
e nada lhes dói a não ser o modo de ficar.
X (O Baile)
Não sei como se encontraram os vestidos, nesse tempo
parado, como hoje em que a memória trouxe os meninos
de uma praia distante, vergastados pelo vento, pela areia
e pelas histórias que alguém lhes contou. Não eu que nos vestidos
vejo o bibe, o alpendre, o olhar cruzado
entre quem amava e não chegou. Nada, como estar
quieta, em minha casa, que pode ser areia, deserto,
e talvez, a alma desses vestidos, e dos meninos que matou.
XI
O medo é a forma letal de estar vivo
como os animais que sem malícia nos alimentam.
O medo faz-nos felizes e ímpios.
XI (Breve espaço de lazer)
O medo é o instinto da alma quando o Destino
abre brechas no pano e salta dele
o odor da morte, a quebra, o corpo, o risco
no papel que pode ser ainda, a caligrafia
do primeiro escriba, o que nos deu o nome.
O medo, agora que lhe escrevo a forma, é assim
como a pele que sempre esteve nos braços:
nós olhamos, vemos o filamento das veias, o sulco
de um músculo e a solidão descai nos dedos
feitos, eles próprios, silêncios, quantas vezes, aço.
O aço, é, enfim, a caixa onde o medo fica.
Não é por acaso que a bala, o punhal, a sina,
tem no metal a metáfora, o modo, o fim.
E nele, nesse suor que nem sempre rima,
nesse estar vigilante – o medo motiva – reparte-se
a tristeza, o sonho, o amor. O medo é a vida.
O Natal
Quando o grande amor acaba, fica,
quase sempre, um ódio inútil, destituído
de razão, assim como o inferno que os humanos
sabem fazer porque ainda lhes falta o verdadeiro.
E, no entanto, atrás da sombra desse amor
está o aconchego. Mesmo se não é visível,
ficam lâminas de felicidade, gestos, lapsos
e êxtases tanto mais preciosos porque alastram
enquanto – quem goste – fuma um cigarro.
E na tabuada do medo, às vezes, peste,
quando se medita, uma amizade que tem outro gosto:
única na cumplicidade, traz recado e eles
transformam o corpo numa solidão compartilhada
e sem corpo. É como um pêndulo fiel
e límpido. É, talvez, a bem-aventurança.
Mas nem todos sabem que é isto o Natal.
23/12/97
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