domingo, 24 de janeiro de 2010

...mais uma vez, as mãos, "a catedral" da Vontade













Existem doenças que, não sendo terminais, diagnosticáveis ou sequer reconhecidas como doenças, são determinantes e (por vezes, mal)formadoras. Um exemplo disso é aquilo a que poderei chamar de doença da vontade. Esta, o seu órgão, deve estar em plena harmonia e equilíbrio com todos os outros órgãos. Não se suprimindo nem se exaltando. Por qualquer mal-formação não identificada, este órgão nasceu em mim externo. Transporto-o numa pequena bolsa, dentro da mala e, por vezes, quando troco de mala, esqueço-me dele.
Vem-me à memória um acontecimento que talvez possa explicá-lo, que talvez possa ser uma causa parcial. Nasci sozinha. Comecei a forçar a entrada neste mundo quase sem que a minha mãe desse por isso. Foi um alvoroço. A minha Avó saiu desesperada em busca da parteira que tinha posto alguns dos membros da família neste mundo. Quando a velhinha chegou, eu estava praticamente pronta a entrar em cena. Foi preciso apenas um pequeno gesto das mãos enrugadas da velha senhora, que só consigo imaginar vestida de preto, para que me expusesse totalmente, fazendo ouvir o meu primeiro choro - não sei se por medo do mundo, se por medo daquela figura que com as suas mãos fez o último gesto. A senhora, que vinha de um parto difícil, não queria aceitar o dinheiro pois, segundo ela, não tinha feito nada. Mas fez.
Talvez esta experiência tenha ficado inscrita algures. Esta espécie de voluntarismo feroz, no sentido de inesperado, que tanta agitação provocou e que, apesar de tudo, só se pode consumar com uma pequena intervenção de uma figura algo sinistra, algo mitológica, com qualquer coisa de parca. Talvez tivesse ficado inscrito em mim, como lição vivida e incontornável, que todo o acto de vontade (em mim) depende em última instância da aparição daquela que com as suas mãos tece o destino. Foi esse gesto que me proporcionou a primeira respiração autónoma sob o meio-dia.
E como num corpo lacerado as células procuram novas conexões, alternativas, esse Marte, tímido em mim, procurou aliados – Vénus. Dessa aliança nasceu uma exaltada Atenção, essa “oração da alma”, nas palavras de Goethe. Essa bússola, estrela polar que dispensa itinerários para onde quer que seja, mapas ou esquemas, mas que, num simples sinal ou brilho, indica.
Por isso as mãos importam tanto. É Vénus quem as identifica. As mãos que fazem o último gesto; que sendo destino, não se vistam de negro mas de Luz; que resgatem; que mostrem a cada instante como vale a pena a Vontade.


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