terça-feira, 26 de janeiro de 2010

luz silenciosa

A rua está vazia. As poucas pessoas que aqui passam, passam em silêncio, apressadas, como se o lugar onde estou fosse neste momento um vazio que é urgente atravessar. Deitam-me um olhar de onde salta um misto de interrogação e reprovação – como pode ela estar ali?, e um abanar de cabeça que não chega a ser.

Há um silêncio que invoca a Noite e que se sobrepõe ao ladrar furioso do cão da esquina e a todos os restantes sons inúteis. O único som em harmonia com o silêncio deste instante, - que com ele compõe a banda sonora - , provém da dança dos pedaços de papel que giram em torno da mesa onde estou, cumprindo a coreografia e a vontade do vento.

O frio intenso condenou este lugar. E quem permanece em lugares condenados, condenado estará, penso eu, com a minha costela hebraica, com a ressonância do meu nome. Neste momento, o postal que me serve de marcador à “Morte de Virgílio” - Luz Silenciosa - voa também. Sinto um misto de estremecimento e fascínio ao vê-lo entrar no bailado juntamente com os pedaços de papel. Pousou. E no fim deste andamento levanto-me para apanhá-lo como se do acto de o recuperar dependesse a minha salvação.

O casal de irmãos que diariamente aqui vem almoçar dobra a esquina. Olha a montra, como sempre, e entra. O sino da Igreja confirma o cumprimento deste ritual diário – é meio-dia.

Chega outro “condenado”. Entra para ir buscar o café mas virá sentar-se na mesa ao lado e permanecer. Arrumo as minhas coisas coisas com uma estranha urgência e parto. Preciso voltar para casa com a imagem intacta do vazio que encontrei.

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