quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Marguerite Yourcenar: Le paradoxe de l'écrivain

Trazemos connosco uma determinada frequência. E só a sintonia com essa frequência nos permitirá o verdadeiro acesso ao Mundo e à Vida, pois é a partir dela e nela que nos poderemos cumprir como seres únicos, como gota do imenso mar cósmico.
É natural então que, por mais diversa que seja a nossa actividade, por mais dimensões horizontais que experienciemos, o mesmo cunho se revele – a nossa dimensão vertical que imprimimos nas coisas. Será isso o “estilo” – a linguagem própria que cada um conseguiu alcançar num trabalho consigo mesmo e com o mundo, com o interior e o exterior. Creio que este “estilo”, no sentido mais nobre da palavra, aquilo que nos faz perceber imediatamente num quadro que se trata de um Chagall e não de um Magritte, numa sonata que é um Beethoven e não um Mozart, num Mozart de Maria João Pires que é ela e não um Mozart/Richter, a conquista dessa linguagem própria que tem por vezes muito de indefinível – um inefável não sei o quê – que estabelece a nobreza da arte. A arte como contributo pessoal, único, na visão do universal. E esse “estado”, Yourcenar diz-nos, a propósito do escritor, como de todo o artista, funda-se num paradoxo – o artista tem que ser profundamente ele próprio, dar o contributo que só ele pode dar e, ao mesmo tempo, afastar-se de si, fazer tábua rasa de si mesmo. Isto que parece uma contradição, só o é se tivermos uma noção restrita deste “si próprio”. O si próprio aqui em questão não é a “personalidade” definida pelos burocratas do psiquismo. É um si mesmo cósmico. As noções que julgo melhor exprimirem esta visão são efectivamente as de frequência e sintonia. Alguém que procura a sintonia com a sua frequência procura necessariamente a sintonia com o Mundo. E estar neste caminho, onde tudo contém o seu reverso, onde a realidade é necessariamente fluída e transitória, é de algum modo - e paradoxalmente também - já se ter encontrado.
Esta "comunicação" da Yourcenar é, como ela própria, uma pérola.

O que me impressiona, para além do seu conteúdo mais imediato - é inevitável que ao vermos um vídeo de alguém a falar sobre um assunto nos centremos nas palavras, na mensagem por elas veiculada - é o seu corpo, a sua voz - toda a sua fisionomia que nos expõe, numa outra linguagem, as suas ideias e, uma outra dimensão das mesmas - o corpo do pensamento, a sua verdade.
Yourcenar suscita em mim o mesmo tipo de impressão que me suscitaram alguns dos grandes Mestres Budistas - a sensação da verdadeira Presença (a si e consequentemente aos outros), de um Presente, de alguém que não pertence a nenhum tempo, a nenhum género, a nenhuma categoria. Não porque está alienada dessa condição, não porque a repele ou nega, mas porque as viveu ao ponto de as ultrapassar. De lhes conferir o estatuto de dispensáveis.


Le paradoxe de l'écrivain (1:3) http://www.youtube.com/watch?v=ovp90NAgkTs

Le paradoxe de l'écrivain (2:3) http://www.youtube.com/watch?v=HxL3unhjbcA

Le paradoxe de l'écrivain (3:3) http://www.youtube.com/watch?v=n0hGqdoZXQE

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