Enquanto lia, senti alguém aproximar-se. Por entre as linhas do livro que lia, percebi quem era. Fechei o livro e ela estava sentada à minha frente, pedindo-me um cigarro. Quando Lilith chega reclama atenção. Não é alguém com quem se possa estar lado a lado, numa solidão partilhada. Quis saber como estava, apesar de já ter pressentido o frémito da sua presença. Lilith não quer saber como estou. Não lhe interessam os pormenores do meu quotidiano. E na realidade, pouco importa, pois na sua presença tudo isso se apaga. O mundo fica sob outra tonalidade e outro Tempo. Por vezes caímos em abismos. Outras vezes não. Mas há sempre uma tensão.
Estou com saudades de casa, disse-me enquanto acendíamos o cigarro. Olhei-a por longo tempo enquanto aquela “ideia” ressoava em mim procurando a frequência correcta. Lilith levou a mão à mala e tirou um saco de plástico que colocou em cima da mesa. Como eu, ela ama aquela rua onde não moro. Onde toda a gente me reconhece e me vê aparecer e desaparecer sem saber de que portas entro e saio. É uma micro aldeia dentro da aldeia que é o bairro. A grande maioria dos seus habitantes são pessoas que não “funcionam”. Reformados ou desempregados que vivem não se sabe bem de quê, o que lhe confere uma dimensão de tempo peculiar.
De dentro do saco de plástico Lilith tirou um Buda. Uma figura que nos apaixona a ambas. Apesar de parecer um contra-senso dizer-se que Buda nos apaixona, não o é. Pensarei mais tarde porque não o é. Olhei-o demoradamente enquanto a frase de Lilith procurava um local onde pousar em mim.
Era um Buda peculiar. Um ser desperto. Porém, toda a sua postura era demasiado humana. Não reflectia cansaço, desespero, nem outra qualquer emoção que possamos reconhecer. As mãos pousadas sobre o joelho da perna direita, em pé, a cabeça deitada sobre as mãos, transmitiam a serenidade de um Buda que se concedeu um instante de humanidade. Que se permitiu deixar, por um instante, a verticalidade que o caracteriza e que, com certeza, contemplava os seus pensamentos e emoções humanos deixando-os partir.
Apaixonei-me por esse instante da vida de um Buda, cristalizado naquela imagem que Lilith me ofereceu e fiquei feliz por poder trazê-lo comigo. Percebi, com razão ou sem ela, que naquele instante nos fundíamos os três numa nostalgia que só podia ser a saudade de um regresso a casa.
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