segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

sétimo sentido ou a mancha













Para lá do betão, para lá do verniz, por formação orgânica, morfológica, as vozes estão aí. Chegam-nos num silêncio pleno. Difusas. Vozes de presenças que se inscreveram, que se vão inscrevendo. E a melodia está lá. Para ser desenterrada, desenhada, recuperada à distância; recuperada ao vazio que a protege do óbvio – o óbvio que não é evidência.

Escrevo para te alcançar. Para que se faça Noite – a noite primeva que estala o verniz. A noite que dilui todas as formas – a minha, a tua, esta “nossa” que não me chega.

E as palavras opõem resistência. Com a inércia própria de todo o chão. Resistem a entrar na Noite, a entrar no Vazio.

E as palavras são camadas, nós somos camadas de palavras. Palavras que produzem reflexos, lançados em todas as direcções - do espaço, do tempo -, reflexos que nos ofuscam.

E é preciso escavar mais fundo, retirar a crosta inútil da superfície. Das palavras que nos definem, que definem a ordem, o cosmo e, porque definem, confinam.

É preciso peso. Pisadas mais fortes. É preciso quebrar o verniz sobre o qual caminhamos sem caminhar, porque a medo, porque queremos ir mais longe quando devemos ir mais fundo. Difícil, difícil quebrar o verniz de nós próprios e do mundo. O verniz instalado nas palavras e aceder ao húmus da verdade, da nossa verdade. Perseguir as palavras que nos digam, seguir o seu rasto. Pois elas são um dos espelhos do Mistério.

E a linha pesa. Rasuro e espero que surjas, tu noite, tu e a noite, dessa rasura, dessa linha desfigurada, desse alfabeto não inventado. Mancho o papel. Espero o sinal.

O nome não nasce na inscrição. O nome que te evoca. O nome onde ecoas. Não se inscreve (pois) está inscrito em mim, algures, disseminado, omnipresente, nesse lugar mágico onde também tu existes sem o saberes. Não, não por um sentido romântico mas pela evocação do caminho


Somos nas vidas uns dos outros lições – de alegria ou dor;

somos caminhos – terra batida, betão, areia fina ou água.

Somos ruas – vias de sentido obrigatório ou proibido.

Somos (uns para os outros) repetições – variações do motivo que trazemos.

E em cada encontro tentamos resgatar todo o fracasso passado ou futuro.

Tentamos compreender e resolver. Tentamos dissolver.

Buscamos a Salvação – a possibilidade do gesto justo, correcto. De um último retoque que nos salve, nós, nossa obra – a fusão perfeita, as águas límpidas, o espelho perfeito. A integração.

Somos sempre (uns para os outros) uma nova possibilidade de Luz – pura subida ou queda, queda no mais fundo, o que vem a ser o mesmo –


Escrevo para ouvir a voz deste vazio que se fez em mim pela tua quase-presença, pela sonoridade do teu silêncio. Este vazio que me chama.

Apago as luzes. Espero um sétimo sentido – a metamorfose dos outros seis em algo outro, algo que desconheço.

(Do sexto surgiu a tua quase melodia; dos cinco, surgiu tudo o que é divinamente humano).

E talvez o caminho que evocas se cumpra precisamente nesta quase-presença que me impele a procurar-te onde não estás, a descobrir-te onde possivelmente não moras.

(Mas a ti, o que te chega de tudo isto?)

Talvez já me esteja a cumprir contigo nesta clareira em que a vontade está desperta.


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