Dois excertos que partilho, quem sabe, servindo de ponte subtil para um outro chamamento.
"Nada do que é terreno consegue realmente abandonar o sono e só quem nunca esquecer a noite que traz consigo consegue fechar o anel, consegue voltar da intemporalidade do começo à do fim, consegue empreender sempre de novo o percurso circular, ele próprio astro na imutabilidade do decorrer do tempo, emergindo da escuridão, desaparecendo na escuridão, nascimento e renascimento no reino nocturno e do reino nocturno, acolhido pelo dia, cuja claridade penetrou na escuridão, dia que contém a noite: sim, assim tinham sido as noites, todas as noites da sua vida, todas as noites através das quais ele tinha andado, cheio de medo da inconsciência, que ameaça sob a noite, cheio de medo da ausência de sombras que está sobre eles, cheio de medo de abandonar Pã, cheio de um medo que conhece os perigos de uma dupla intemporalidade, sim, assim tinham sido aquelas noites, ligadas ao limiar da dupla despedida, noites do sono do mundo imutavelmente constante, se bem que nas praças, nas ruas, nas tabernas, absolutamente constantes em cidades e mais cidades, desde o início, ecoando inaudível das lonjuras do tempo e mesmo por isso insistentemente percebidas, os homens bramavam, sono também isto, embora nos salões de festas e mais festas os poderosos do mundo se deixassem homenagear, rodeados de archotes e de música, sorrindo-lhes rostos e mais rostos, cortejados por corpos e mais corpos e eles próprios sorrindo, eles próprios cortejando, sono também isto, embora ardessem as fogueiras das sentinelas, não só em frente dos castelos, mas também lá fora, onde havia guerra, nas fronteiras , nos rios negros como a noite e nas orlas das florestas sussurrantes de noite e também sob os agressivos e estonteantes gritos dos bárbaros que emergem na escuridão, sono isto também, ais sono como o dos velhos desnudos que em antros fedorentos dormiam o último resto de vigília dos seus corpos, como o dos bebés que sonham sem sonhos partindo da miséria do seu nascimento para a vigília estúpida de uma vida futura, como o do grupo de escravos acorrentados nos porões dos navios, que como vermes atordoados estavam estendidos nos bancos, nas pranchas, nas pilhas das amarras, sono e mais sono, rebanho e mais rebanho, erguidos acima da indistinção do seu solo original, como cadeias de colinas, que repousam na planície, afundando-se no inalteravelmente materno, no permanente regresso que ainda não é intemporalidade e que no entanto a gera de novo em cada uma das noites terrenas; sim, assim tinham sido estas noites, assim sempre elas tinham sido, assim também era esta, talvez para sempre, noite na soleira equilibrada entre a intemporalidade e o tempo, entre a despedida e o regresso, medo e salvação, e ele, preso à soleira, noite após noite esperando na soleira, com a vista turva pelo lusco-fusco da orla da noite, nas trevas da orla do mundo, ele, conhecendo o acontecimento do sono, ele tinha sido levado até ao inalterável, e tornando-se ele próprio forma, foi arremessado para trás e lançado para cima para as esferas da poesia, para o reino intermédio do conhecer terreno, para o reino intermédio das mães, da sabedoria e da poesia, para o sonho, que está para além do sonho e atinge o renascimento, meta da nossa fuga, a poesia.
Fuga, oh fuga! Oh noite, a hora da poesia. Porque a poesia é uma espera vigilante, no crepúsculo, poesia é abismo com prenúncios de crepúsculo, é espera na soleira, é simultaneamente comunidade e solidão, é mistura e medo da mistura, sem impudícia na mistura, tão sem impudícia como o sonho dos rebanhos adormecidos, e no entanto medo de uma tal impudícia: oh, poesia é espera, ainda não partida, mas constante despedida."
(A Água: A chegada; pp. 70-71)
"O homem é um animal erecto, ele só, mas estende-se para descansar e dormir, para o amor, para a morte -, mas também nesta tripla qualidade do seu jazer ele se distingue de todos os outros seres. Erecto, destinado a crescer, a alma do homem estende-se para cima a partir dos abismos obscuros das suas raízes no húmus do ser até à redoma das estrelas cheirando a sol, carregando para cima a sua sombria origem de Poseidon e de Vulcão, trazendo para baixo a transparência da sua meta de Apolo e quanto mais se torna forma impregnada de luz devido ao seu crescimento, tanto mais se ensombra, assumindo forma, ramificando-se e desdobrando-se como a árvore, tanto mais se torna capaz de unir, na sombra da folhagem dos seus ramos a escuridão e a luz; mas quando se estende para o sono, para o amor, para a morte, quando se torna, ele próprio, paisagem estendida, então já não é sua tarefa fundir os opostos, porque dormindo, amando, morrendo, fecha os olhos e já não é nem boa nem má, é apenas um escutar único e infinito: alma infinitamente estendida, infinitamente rodeada pelo anel dos tempos, infinita no seu repouso e por isso livre de todo o crescimento; sem crescer como a paisagem que é, abrange todas as épocas, como esfera inalterável, inalterável e saturnina, estende-se da Idade do Ouro à Idade do Bronze, sim, mesmo para lá até regressar à do Ouro e devido à sua fusão com a paisagem, devido à sua prisão no que é terreno e nas paragens terrestres, em cuja superfície se separam as esferas da luz celeste e da escuridão da terra, é ao mesmo tempo fronteira entre as regiões superiores e inferiores, separando e ligando as esferas, pertencendo sempre, qual Jano, a ambas, à levitação das estrelas como à da gravidade da pedra, às do éter como às dos fogos dos infernos, qual Jano infinidade duplamente orientada, qual Jano alma infinitamente distendida, repousando no crepúsculo, de tal modo que o acima e o abaixo podiam ser, ao seu atento desejo de saber, sem se fundirem, de igual significado: sem significado, sem ser digno de qualquer escuta ou desejo de saber, lhe surge pelo contrário o acontecimento como tal, já que não as sente nem como crescimento, nem como processo de murchar ou de secar, nem sequer como ventura ou incómodo, mas como permanente regresso, como o permanente retorno para dentro do seu próprio ser, o retorno do decurso saturnino que tudo abrange, em que as paisagens da alma e da terra infinitamente se estendem, impossíveis de distinguir na sua inspiração e expiração, em seu germinar e amadurecer, nas suas colheitas férteis e nas colheitas malogradas, na sua morte e na sua ressurreição, nas estações da sua natureza ilimitada entrelaçadas no retorno eterno, rodeadas pelo anel da eterna semelhança e daí estendendo-se em descanso para o sono, para o amor, para a morte -, um escutar da paisagem da alma, o auto-escutar saturnino do morrer isento de morte, de ouro e de bronze ao mesmo tempo.
Ele escutava o processo de morrer; não podia ser de outro modo. A consciência deste facto viera-lhe sem medo, quanto muito com aquela clareza extraordinária que de um modo geral surge com o aumento da febre. E agora, deitado na escuridão, escutando a escuridão, compreendeu a sua vida, e compreendeu até que ponto ela tinha sido uma contínua escuta do desenvolvimento da morte, desdobrada a consciência, desdobrado o gérmen da morte que se encontra desde o início em toda a espécie de vida e a constitui, desdobramento duplo e triplo, saindo um do outro e desenvolvendo-se através dele, cada qual a imagem do anterior e realizando-se precisamente por isso – não era esta a força onírica de todas as imagens e sobretudo das que são capazes de determinar uma vida? Não seria também esse o caso da caverna nocturna dos mundos que, prodigiosa e aterradora pela intemporalidade, pejada de estrelas e com promessas de eternidade, surge como uma abóbada por cima de todo o ser? Porque o que outrora, em seus tempos de rapaz, tinha sido uma representação ingénua e infantil da morte, a ideia da sepultura, em que o corpo é depositado, converte-se na grande imagem da caverna e a construção da cripta na baía napolitana tinha sido então mais do que a simples repetição e concretização da velha ideia da infância; não, com essa construção tinha-se dado expressão à universal abóbada da morte, ele passara toda uma vida sonhando desperto. Por causa do todo abrangente poder dessa meta tinha ele tentado durante muito tempo, na verdade por demasiado tempo, encontrar o seu verdadeiro destino, por causa desta meta sempre conhecida mas nunca consciencializada, ele tinha interrompido todos os percursos antes do tempo, insatisfeito com todos eles, e não se tinha mantido na profissão de médico, nem da astrónomo, nem na de sábio, filósofo e professor e nem elas o tinham realizado; a exigente, incompleta imagem do conhecimento da morte permanecera continuamente diante dos seus olhos e nenhuma profissão poderia adequar-se a ela, uma vez que não há nenhuma que não esteja exclusivamente dependente do conhecimento da vida, nenhuma, à excepção dessa para a qual tinha sido impelido e que se chama Poesia, essa que é a mais estranha de todas as actividades humanas, a única consagrada ao conhecimento da morte."
(O Fogo: A Descida pp. 88-90)
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