Há anos que estou para escrever algo sobre a Maria João Pires.
As razões: tudo o que ela tem representado na minha vida, enquanto pianista excepcional (a melhor dos que conheço, e conheço muitos, mas isso ficará para cozinhar mais tarde), enquanto pessoa excepcional que é, com uma visão própria daquilo que é a Arte e daquilo que é a Educação. Com uma Visão. E com a capacidade de pôr em prática essa Visão (basta conhecer o seu trabalho). Pelos momentos únicos que vivi em Belgais, momentos que tive o privilégio de viver não por ser “amigalhaça” ou por pertencer a um qualquer circuito fechado, mas simplesmente porque me dispus a ir.
Mas não é ainda desta vez que irei tentar dar forma a essa Luz que a Maria João Pires representa na minha vida (de pessoa, de professora,…). O meu propósito aqui não é de acção (construção), mas de reacção (desconstrução) e, por isso, muito menos digno. A desconstrução de alguns lugares comuns que me desgostam e, porque não dizê-lo, me irritam. O pretexto desta reacção foi um pequeno texto lido por acaso num blog qualquer ao qual fui atraída pela fotografia da Maria João Pires, e que está em sintonia com um monte de outros aglomerados de palavras publicados nas “opiniões” do Público. Não deixa de ser interessante, do ponto de vista de uma análise mais profunda, observar a reacção dos portugueses em situações deste tipo. Confesso que não consigo deixar de me surpreender com o patriotismo oco e artificial que é despoletado (ou espoletado para quem prefere) neste povo de brandos costumes, mesmo em alturas onde a má gestão da casa, a inversão de valores, a corrupção, o provincianismo e outras pragas nos invadem.
Centrar-me-ei numa frase: “Mais uma vez, há que separar a pessoa do talento que tem. Inquestionável, novamente.” O que é que isto quer dizer exactamente? Dever-se-á mesmo separar “a pessoa” do “talento”? Conhece, quem escreveu isto, essa dimensão da pessoa em questão? E o que é o seu “talento”? É inquestionável porquê? No contexto desse texto é óbvio que é inquestionável porque “todos” o reconhecem (diga-se, mais lá fora que cá dentro, o que também é sintomático). Saberá o autor desse aglomerado de palavras (as tais 100) avaliar o talento e a pessoa?
A liberdade de expressão, perdoem-me se quiserem, não é um valor em si. É um meio. Um precioso meio que, para ter valor, exige de quem dele usufrui conhecimentos mínimos para falar dos assuntos a que se propõe. Sem leviandades nem “caldeiradas”. A liberdade de expressão exige responsabilidade e, tanto maior, quando visa avaliar pessoas (mais que talentos).
Como também tenho que trabalhar, proponho para terminar que cada energúmeno (para utilizar a expressão do “autor”), que não sabe dos assuntos que fala, se cale e faça calar mais dois; ou, melhor, que se informe e faça informar mais dois, quando se trata de deitar abaixo pessoas. Este país ganharia com isso.
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