Trinta euros. Era acima daquilo que deveria gastar. Ficava sempre, num canto recôndito qualquer, essa sensação de infracção. Acho que era na cabeça. Só podia ser na cabeça, num local específico da cabeça.
Mas estava ali. A uns bons metros do palco mas ali, próxima do epicentro da magia. Aos poucos a sala foi enchendo. Muito aos poucos, pois a pontualidade não é uma virtude portuguesa. Quando a sala escureceu estava cheia e o desconforto começou a instalar-se. Ela entrou, as palmas abafaram a sua presença e o espaço transfigurou-se com o som insuportável do meu coração. A pulsação acelerava num crescendo que parecia levar à explosão. Comecei a transpirar e a sentir-me desfalecer. Tirei os óculos, fechei os olhos. O concerto já tinha começado. Enquanto olhava para a distância que me separava de um corredor de fuga, sussurrei “não me estou a sentir bem”. Tomaram-me o pulso, disseram-me que estava muito acelerado, que eu estava toda suada. Pedi que parassem. Disse que já estava a controlar-me e isso ajudou. Toda a primeira parte do concerto foi esta música dionisíaca e o meu debate em busca de forma. Uma forma qualquer. Para o meu corpo se manter. Depois do intervalo, do ar fresco e da água, a magia tranquila mas exausta.
No regresso, em direcção a minha casa, meia-noite e qualquer coisa, vejo-a. Numa paragem de autocarro, sozinha. Fiquei parada ali, naquele lugar, naquele tempo enquanto o carro me levava. Não podia continuar a noite como se não a tivesse visto. Despedi-me. À porta. “Não consigo, preciso de ficar sozinha”, disse. E a crise de pânico foi uma desculpa aceitável para aquele sorriso triste e para mim também.
Já tinha conseguido atenuar o seu rosto. Um pouco. E tudo voltou naquele instante. Esse todo complexo feito de um sentimento que jamais conseguirei compreender.
Pela primeira vez o meu corpo tinha se entregue sem expectativas nem contexto.
E foi tão bom. Era tão bom enquanto durava.
Não és tu a razão deste meu mal-estar. Não és tu, como não foi ela. O mal-estar sou eu. O mal-estar é o meu olhar sobre o mundo, sobre a vida. O mal-estar é o excesso. É a falta. A inevitável falta. O mal-estar é esta minha doença de absoluto.
Havia um desejo imenso. Coisa de pele, de sexo, de suor, de lava.
Havia também poesia. Noites na praia, nascer do sol com flamingos e barcos antigos, num cobertor. Havia o pequeno-almoço na esplanada ao pé de casa e o sono que se saciaria depois, numa inversão total do ritmo quotidiano.
Mas em mim a cisão sentia-se. “Eu era simples demais para ti”, disseste-me mais tarde, quando te libertaste para outros perfumes.
Tenho um detector de abismos. Quem vive os abismos detecta-os. Odeia-os e ama-os. Com a mesma força. Foge deles correndo na sua direcção. E mais uma vez…
“O amor é visto como uma daquelas rosas que os catálogos de jardinagem britânicos apelidam de ‘repeat-flowering’. Assim que a rosa murcha, basta arrancá-la, para logo nascer outra. O amor é uma experiência repetitiva, cíclica. Não há o Grande Amor. Há sucessões de amores, de tamanho médio ou pequeno, que despontam assim que o anterior murcha. Não é por acaso que o advérbio mais utilizado na poesia de amor arcaica significa ‘de novo’.” Frederico Lourenço, in Grécia Revisitada (Safo, Anacreonte, Íbico: Amor à Machadada)
E se o tempo for mesmo um lugar?
Tu, porque corres num desespero alegre como se os ponteiros fossem reais? O que tanto queres deixar de ti por aqui? Que marcas imortais procuras inscrever nesta terra desolada? Corres feliz? Corres cansada?
Tu, porque te sentas nos dias como se já cá não estivesses? Porque desististe de te sentir vivo, tu que tens como gémeo o excesso?
E eu? Porque vivo eu saltando de impasse para impasse?
Que circuito fechado é este em que teimo em viver? Passo mil vezes pela mesma rua e mil vezes caio no mesmo buraco. Evito-o? Não.
E no entanto há sempre parte de mim que me observa em queda. Parte de mim que subiu pela ponte de um olhar luminoso. Um olhar familiar. Um olhar que me salva enquanto eu não lhe sucumbo.
Bem-haja essa doce e subtil presença
2 comentários:
Gosto de te ler.. sempre gostei! Escreves bem, de forma intensa.. contigo tudo é intenso e forte!
Há impasses e buracos..pois certamente os haverá, mas são todos eles que criam o teu ser e a tua forma de estar.. complexa, sempre em busca de algo mais, sempre insaciável e insatisfeita com o quotidiano, sempre em busca de um "absoluto" que não sei se existe... eu, apesar de acelerada, sou simples, gosto de viver devagar e sentir os momentos... mas isto sou eu que sempre gostei de conhecer e perceber o que me rodeia.. e há tanto que não conheço e não sei.
Mas o complexo também tem a sua forma de expressão, rica e pensada, analisada e sentida... no fundo, talvez seja apenas, mais ambiciosa... :)
Beijo
Obrigada pelas tuas palavras
Um Beijo... com toda a simplicidade :-)
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