domingo, 5 de julho de 2009

Da Dança

Paul Valéry, in Degas Dança Desenho






“Porque não falar um pouco da Dança, quando se trata do pintor das Bailarinas?
Gostaria de fazer uma ideia bastante nítida dela, e arranjar-me-ei como puder, diante de todos.
A Dança é uma arte dos movimentos humanos, daqueles que podem ser voluntários.
A maior parte dos nossos movimentos voluntários tem uma acção exterior como fim: alcançar um lugar ou um objecto, ou modificar alguma percepção ou sensação em um ponto determinado. São Tomás dizia muito bem: “Primum in causando, ultimum est in causato”.
Atingido o objectivo, terminada a actividade, o nosso movimento, que estava de algum modo inscrito na relação do nosso corpo com o objecto e com a nossa intenção, cessa. A sua determinação continha a sua exterminação; não se podia nem concebê-lo nem executá-lo sem a presença e o concurso da ideia de um acontecimento que fosse o seu termo.
Esse tipo de movimento efectua-se sempre segundo uma lei de economia de forças, que pode ser complicada por diversas condições, mas que não pode deixar de reger o nosso dispêndio. Não se pode nem imaginar acção exterior terminada, sem que certo mínimo se imponha à mente. Se penso em me dirigir da Étoile ao Museu, não pensaria nunca que posso também realizar o meu desígnio passando pelo Panthéon.
Mas há outros movimentos cuja evolução não é excitada, nem determinada, nem possível de ser causada e concluída por nenhum objecto localizado. Nenhuma coisa que, alcançada, traga a resolução desses actos. Cessam apenas mediante alguma intervenção alheia à sua causa, à sua figura, à sua espécie; e, em vez de estarem submetidos a condições de economia, parecem, ao contrário, ter a própria dissipação por objecto.
Os saltos, por exemplo, as cambalhotas de uma criança, ou de um cão, a caminhada pela caminhada, o nado pelo nado, são actividades que têm como fim apenas modificar o nosso sentimento de energia, criar certo estado desse sentimento.
Os actos dessa classe podem e devem multiplicar-se, até que uma circunstância completamente diversa de uma modificação exterior que eles tenham produzido, intervenha. Essa circunstância será uma qualquer em relação a eles: cansaço, por exemplo, ou convenção.
Esses movimentos, que têm neles mesmos o seu fim, e que têm como fim criar um estado, nascem da necessidade de serem realizados, ou de uma ocasião que os excite, mas esses impulsos não determinam nenhuma direcção no espaço. Podem ser desordenados. O animal, farto da imobilidade imposta, evade-se, bufa, fugindo de uma sensação e não de uma coisa; extravasa-se em galope e travessuras. Um homem, em quem a alegria ou a raiva, ou a inquietude da alma, ou a brusca efervescência das ideias, libera uma energia que nenhum acto preciso pode absorver e esgotar na sua causa, levanta-se, vai, caminha a largos passos apressados, obedece, no espaço que percorre sem ver, ao aguilhão dessa potência superabundante…
Mas existe uma forma notável desse dispêndio das nossas forças, que consiste em ordenar ou organizar os nossos movimentos de dissipação.
Dissemos que, nesse género de movimento, o Espaço era apenas o lugar dos actos: ele não contém o seu objecto. É o Tempo, agora, que desempenha o papel mais importante…
Esse Tempo é o tempo orgânico tal como é encontrado no regime de todas as funções alternativas fundamentais da vida. Cada uma delas efectua-se por meio de um ciclo de actos musculares que se reproduz, como se a conclusão ou o término de cada um deles engendrasse o impulso do seguinte. A partir desse modelo, os nossos membros podem executar uma sequência de figuras que se encadeiam umas nas outras, e cuja frequência produz uma espécie de embriaguez que vai do langor ao delírio, de uma espécie de abandono hipnótico a uma espécie de furor. O estado de dança está criado. Uma análise mais subtil veria aí sem dúvida um fenómeno neuromuscular análogo à ressonância, que ocupa um lugar tão importante na física; mas que eu saiba essa análise não foi feita…
O Universo da Dança e o Universo da Música têm relações íntimas sentidas por todos, mas ninguém apreendeu até agora o seu mecanismo, nem mostrou a sua necessidade.
Nada é mais misterioso do que essa percepção tão simples de enunciar: a igualdade de duração, ou de intervalos de tempo. Como podemos estimar que ruídos se sucedem em intervalos iguais, soar batidas igualmente diferentes? E o que significa até mesmo essa igualdade afirmada pelos nossos sentidos?
Ora, a Dança, engendra toda uma plástica: o prazer de dançar irradia ao seu redor o prazer de ver dançar.
Dos mesmos membros compondo, decompondo e recompondo as suas figuras, ou de movimentos que se respondem em intervalos iguais ou harmónicos, forma-se um ornamento da duração, assim como da repetição de motivos no espaço, ou das suas simetrias, forma-se o ornamento extensão.
Esses dois modos, por vezes, transformam-se num outro. Vêem-se, nos ballets, instantes de imobilização do conjunto, durante os quais o agrupamento dos bailarinos propõe aos olhares um cenário fixo, mas não durável, um sistema de corpos vivos subitamente congelados nas suas atitudes, que oferece uma imagem singular de instabilidade. Os sujeitos estão como que presos em poses bastante distantes daquelas que a mecânica e as forças humanas permitem manter… ou imaginar outra coisa.
Daí resulta esta maravilhosa impressão: que no Universo da Dança o repouso não tem lugar; a imobilidade é coisa imposta, forçada, estado de passagem e quase de violência, enquanto que os saltos, os passos contados, as pontas, o entrechat ou as rotações vertiginosas são maneiras completamente naturais de ser e fazer. Mas, no Universo ordinário e comum, os actos são apenas transições, e toda a energia que por vezes neles aplicamos só é empregada para esgotar alguma tarefa, sem repetição e sem regeneração de si mesma, pelo impulso de um corpo sobre-excitado.
Assim, o que é provável em um desses Universos é, no outro, um acaso dos mais raros.
Essas observações são bastante fecundas em analogias.
Um estado que não se pode prolongar, que nos põe fora ou longe de nós mesmos, e no qual, contudo, o instável nos mantém, enquanto o estável só figura por acidente, dá-nos a ideia de uma outra existência perfeitamente capaz dos momentos que na nossa são mais raros, inteiramente composta pelos valores-limites das nossas faculdades. Penso no que se chama vulgarmente de inspiração
Existe algo mais improvável do que um discurso que seduz, que encanta o espírito a cada admissão das imagens e ideias que desperta, enquanto a sequência dos dignos sonoros e das articulações que o produzem aos ouvidos se impõe, impõe, suporta e prolonga o valor emotivo da Linguagem?
Mallarmé disse que a bailarina não é uma mulher que dança, pois ela não é uma mulher, e não dança.
Essa observação profunda não é somente profunda: é verdadeira; e não é somente verdadeira, isto é, fortalecida cada vez mais com a reflexão, mas é também verificável, e eu vi-a verificada.
A mais livre, a mais flexível, a mais voluptuosa das danças possíveis apareceu-me numa tela onde se mostravam grandes Medusas: não eram mulheres e não dançavam.
Não são mulheres, mas seres de uma substância incomparável, translúcida e sensível, carnes de vidro alucinadamente irritáveis, cúpulas de ceda flutuante, coroas hialinas, longas correias vivas percorridas por ondas rápidas, franjas e pregas que dobram, desdobram; ao mesmo tempo que se viram, se deformam, desaparecem, tão fluidas quanto o fluido maciço que as comprime, esposa, sustenta por todos os lados, dá-lhes lugar à menor inflexão e substitui-as na sua forma. Lá, na plenitude incompreensível da água que não parece opor nenhuma resistência, essas criaturas dispõem do ideal da mobilidade, lá se distendem, lá recolhem a sua radiante simetria. Não há solo, não há sólidos para essas bailarinas absolutas; não há palcos; mas um meio onde é possível apoiar-se por todos os pontos que cedem na direcção que se quiser. Não há sólidos, tampouco, em seus corpos de cristal elástico, não há ossos, não há articulações, ligações invariáveis, segmentos que se possam contar…
Jamais bailarina humana, mulher inflamada, embriagada de movimento, do veneno das suas forças excedidas, da presença ardente de olhares carregados de desejo, expressou a oferenda imperiosa do sexo, o apelo mímico da necessidade de prostituição, como aquela grande Medusa, que, por espasmos ondulatórios da sua torrente de saias engrinaldadas, que ela arregaça repetidas vezes com uma estranha e impudica insistência, transforma-se em sonho de Eros; e, subitamente, rejeitando todos os seus folhos vibráteis, os seus vestidos de lábios recortados, vira-se ao avesso e expõe-se, furiosamente aberta.
Mas imediatamente se recompõe, freme e se propaga no seu espaço, e sobe como um balão à região luminosa proibida onde reinam o astro e o ar mortal.”

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