O ÚLTIMO CERCO
Um odor antigo penetrava no quarto.
Apenas a recordação, possivelmente,
ou um rio feito noite de Julho
pela janela aberta. Encerrou numa gaveta
os assuntos concluídos e descobriu
no tampo da mesa um risco novo.
Nos seus dedos pairava ainda a sensação
do corpo que deixara atrás. O equilíbrio,
nada de contraditório ou opressivo
enquadrava o rosto. No espelho, lia-se
a cama e a camisa.
Ficou pendurado num sorriso longo, secreto
para si mesmo: "é vontade ou apenas gratidão?"
E na cadeira, só, sentado, mediu exactamente
a sua íntima inocência.
Ana Maria Ferreira in
Arquipélagos da Memória,
a Torre de Babel e outras histórias
...e isto sempre fui eu, dizes-me...
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