
Hoje o amanhecer foi cinzento, húmido e nebuloso. Foi neste cenário que caminhei pelas ruas deste bairro, agora meu, e que me pareceu cristalizado numa aura nocturna.
Depois de umas horas de leitura que roubei ao sono, na esplanada habitual, um menino de boné e camisa clara veio sentar-se na minha mesa, à minha frente. Levantei a cabeça do livro e ele olhava-me com uns olhos penetrantes e cara séria. Parecia sondar-me. É difícil aguentar o silêncio de uma criança que nos fita e saiu-me um “olá”, seguido da pergunta mais palerma: que idade tens? Quatro anos, respondeu o pequeno. Perguntei-lhe logo de seguida o nome, como se tivesse infringido uma hierarquia qualquer na importância das coisas. Rúben, respondeu. E em seguida, perdendo o ar sério e recuperando a expressão que julguei adequada à sua idade, factor que me fez descontrair, disse-me num português tacteado: “O meu primo, morreu por causa de um guindaste. Bateu-lhe na cabeça, disse fazendo o gesto de um soco em si próprio, e ele foi para o céu. Eu não. Eu só vou quando for velhinho. E agora vou para ao pé da minha mãe, está bem?”, e foi.
Já não consegui ler mais. Outros textos se apoderaram de mim. Mas ele voltou. Com ar de criança, muito sorridente, voltou a sentar-se. Perguntei-lhe: gostas da mota? Ele respondeu: sim, mas não tenho dinheiro. Peguei numa moeda e dei-lhe. Enquanto andava na mota mesmo ao meu lado sorria-me e gritava-me adeus enquanto acenava. Quando acabou a mãe disse-lhe que fosse dar um beijinho à senhora e dizer obrigada. “Não é uma senhora, respondeu ele. É uma menina.” Deu-me um beijo e ofereceu-me a outra face apontando com o dedo e dizendo, dá. Disse-lhe que era muito simpático e despedi-me com um “até à próxima” que ele repetiu. E desapareceu na esquina com a mãe, sempre virado para trás a acenar com um sorriso.
Perguntei-me porque uma criança que nunca tinha visto se veio sentar na minha mesa neste dia e o porquê de ter escolhido este tema repelindo assim a minha conversa de circunstância. E a beleza com que falou do seu morto, da sua própria vida, que quer longa, e da sua própria morte como um reencontro.
Retomei a minha leitura e quando o corpo já reclamava fui comprar meias a um chinês perto de casa. É uma loja muito simpática. Ao contrário das outras que conheço, parece-se em tudo com um negócio de família. Tem um casal novo, cuja mulher espera uma menina no próximo mês, e um casal de mais idade, pais dele ou dela. O “ancião” não se parece em nada com os chineses secos e funcionais. Tem o ar de um verdadeiro ancião chinês de outros tempos, com um sorriso largo e sincero. Depois de ter pago, e de ter ouvido a conversa sobre o bebé que está para vir, o chinês mais novo disse: menina, venha aqui. Fui. Pegou numa pulseira cheia de símbolos e com aquela espécie de olhos que se associa a amuleto. Gosta mais de azul ou lilás, perguntou. Escolhi a lilás. Era um presente. Agradeci com ar incrédulo e desconcertado enquanto a família toda me olhava a sorrir.
E foi assim, sob a forma destas manifestações tão inesperadas, que a Morte e a Vida me visitaram hoje. Talvez como um desafio a reescrever em mim a relação com as mortes e com a vida. Não as mortes dos mortos. Não são os mortos que morreram que se tornam “intrusos nas nossas vidas”, na expressão da Yourcenar, mas sim as mortes daqueles que não morreram. Quando não conseguimos perceber que, guardando-os, apodrecem dentro de nós fazendo com que apodreçamos com eles e assim a nossa Vida. E que é um mal recíproco.
Volto à manhã e à deambulação até ao café, e na minha memória ela perde o seu ar nocturno. À cor cinzenta, à humidade e ao nevoeiro junta-se agora na minha memória um vento. Um vento forte daqueles que ferem o rosto, cortam a respiração mas que agitam tudo dentro de nós e nos desafiam a respirar de uma forma mais simples.
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