Marguerite Yourcenar in O Tempo Esse Grande Escultor
Uma criança que tenha nascido numa família católica da Europa Ocidental lembra-se de ao menos uma vez ter ido ao cemitério no Dia de Finados, por tempo certamente frio, triste e cinzento. Na véspera, era o Dia de Todos-os Santos, festa segunda de algum modo, que não se celebra como a Páscoa ou o Natal, com presentes e comezainas, mas que se sabia honrar aqueles mortos oficialmente subidos ao céu. Claro que havia milhares e milhares de santos. Mas havia também, sabia desde logo a criança, milhares e milhares de mortos com destino menos conhecido, e estas vinte e quatro horas do dia 1 de Novembro pareciam curtas para celebrá-los a todos. Mortos subidos ao céu, eles também, mas não beatificados, sem que portanto ficássemos totalmente sossegados a seu respeito, mortos com passagem pelo Purgatório ou para sempre no Inferno, mortos dos tempos pagãos, mortos de outras religiões, noutras partes do mundo, ou nestas. Mortos simplesmente, tão mortos como o cão ou a vaca que não reencontráramos nas férias e de quem nos tinham dito apenas que haviam estoirado.
No que me diz respeito, confundo essa longínqua visita ao cemitério com exposições de crisântemos, essas grandes bolas que enchem as sepulturas bem tratadas, por serem a única espécie que nessa estação oferecem as floristas, a não ser que se escolha uma dúzia de rosas que murcham depressa demais para fazer vista.
É certo que havia algumas pessoas de luto que pareciam mesmo tristes. Mas o que se via sobretudo (e os olhos de uma criança são impiedosos) era pessoas bem vestidas dizendo bem ou dizendo mal dos arranjos florais das outras sepulturas aí deixadas pelos proprietários de “concessões” vizinhas. E não esqueço o sobressalto de horror, tantas vezes sentido nos cemitérios em França, provocado pelas flores espetadas em cornucópias de papel, mortalhas em que irão apodrecer, com a etiqueta de um bom florista, lá postas por pessoas que não gostam nem dos mortos nem das flores, abandonando-as sem uma pinga de água ou sem as espalhar amigavelmente pela terra ou pelo mármore dos mortos. Tinham-se contentado com a compra dessa espécie de ramos – cartões-de-visita (o que é preciso tem de se fazer), pousando-os talvez, caso conservassem um resto de fidelidade aos usos piedosos, com um discreto sinal-da-cruz, antes de se afastarem logo que a decência o permitia, visto o tempo em Novembro não favorecer longas permanências nos cemitérios.
O que a criança, entre aborrecida e desagradada não sabia, é que estes ritos outonais se contam entre os mais antigos celebrados na Terra. Parece que em toda a parte o Dia dos Mortos se situa nesta estação, depois das últimas colheitas, quando o Sol descoberto dará supostamente passagem às almas estendidas à sua guarda. Da China à Europa Setentrional, o morto enterrado, muitas vezes com um tufo de ervas por cima, assegurava a fecundidade dos campos e protegia contra as incursões do inimigo, como os ossos do velho Édipo no seu Tholos de Colona. Hoje, no entanto, o seu retorno anual num momento em que a subida para os vivos é mais fácil, é ao mesmo tempo temido e desejado pelos seus descendentes. Todo o rito tem duas faces: oferecem-se de boa vontade as dádivas destinadas a assegurar a sobrevivência do morto, e também a neutralizar a nocividade que adquiriu ao tornar-se morto, mas espera-se que, passada a festa do reencontro, ele regresse ajuizadamente à sua morada de terra. Os ritos do Dia de Finados são ao mesmo tempo os do calafrio e os do amor. Na Finlândia, mostraram-me nesse dia postos indicadores e placas com nomes de quintas isoladas deslocados ou cobertos de panos, para evitar que os espíritos desorientados pudessem voltar a instalar-se nas suas antigas moradas. É um facto inconfessado e quase inconfessável que os mortos mais queridos se tornam ao fim de alguns anos, ou mesmo de alguns meses, intrusos na existência dos vivos, que mudou. Assim o quer, não tanto o egoísmo ou a ligeireza dos homens, mas inevitavelmente a lei da própria vida.
Esta regra das comemorações fúnebres outonais tem as suas excepções. Uma das mais belas festas dos mortos, o festival Bön, que é budista, realiza-se no Verão e consiste em largar no mar centenas de minúsculas urnas onde brilha uma lamparina, imagem da nossa longa e precária viagem para a eternidade. Talvez menos simbólicas, excepto que são também emblemas da luz perpétua que desejamos para os mortos, as lanternas que se alumiam na noite de Natal nos cemitérios da Escandinávia ou da Alemanha, como quem procura fazer participar amigavelmente os que já não estão na alegria e nas acções de graças dos vivos. Nunca mais se esquecem, depois de as ter visto uma vez a caminho da aldeia iluminada, essas chamazinhas reflectidas no gelo do chão ou iluminando os cristais da neve. Uma outra excepção à regra das festas outonais é a celebração quase laica do Decoration Day, que se realiza nos Estados Unidos no fim de Maio e consiste de pôr flores nas sepulturas. Do ponto de vista da horticultura, a época é bem escolhida: não só há muitas flores, como o entusiasmo dos jardineiros amadores se pode estender dos seus jardins para o cemitério. Na Nova Inglaterra, região onde a Primavera é tardia, faz-se muitas vezes o primeiro piquenique da estação. Sem chegar ao costume de vários países islâmicos de beber e comer junto das sepulturas, a alegria dos vivos contém assim um pensamento em sua intenção.
Mas o verdadeiro Dia de Finados nos Estados Unidos é a mascarada burlesca e tantas vezes sinistra de crianças e adolescentes, o Halloween, outra festa do Outono, que se festeja na véspera de Todos-os-Santos, que é também véspera do primeiro dia do mês de Athyr do Egipto Antigo, dia do aniversário da morte de Osíris assassinado pelas forças do Mal e assim tornado deus dos mortos. Hallowed all: todas as almas sejam santificadas. Ninguém, salvo alguns eruditos, conhece o velho sentido etimológico da palavra nem liga este sabbat desordenado à festa dos mortos, mas as verdadeiras festas, que se encontram mais profundamente enraizadas no inconsciente humano, são as que se celebram sem saber porquê.
No Halloween ninguém vai aos cemitérios nem os decora. É um dia de alegria infantil, em que as mães preparam para os seus meninos máscaras ingénuas por vezes lúgubres: não deve haver americano que se não lembre do encanto com que um dia usou um chapéu de chamas do diabo, os bigodes e o rabo de um gato, ou o branco esqueleto em fundo de tecido preto, cândido prenúncio das metamorfoses. Assim ataviados, ou então de bruxa, de drácula, de fantasma embrulhado num lençol ou de super-homem, mas sempre com as suas máscaras, lá vão mendigar bombons de porta em porta, disfarçando a voz e ameaçando os vizinhos que lhes recusem os doces ou lhes dêem muito poucos. Crianças mais velhas e adolescentes juntam-se a eles ou organizam grupos rivais também mascarados e chegam muitas vezes a vias de facto: vidros partidos, ou sujos, ovos atirados às portas e às janelas, móveis de jardim partidos, postigos rebentados para roubarem a garrafa de uísque desejada. Por vezes, surgem partidas atrozes por parte de adultos irritados com as intrusões: falaram-me de bolos recheados com sabão da barba ou com fezes, ou até enfeitados com vidro moído. É também a noite em que as raparigas se arriscam mais, à saída de uma dança, a serem violadas ou até estranguladas atrás de uma sebe.
Nas estradas mudam os sinais de sítio como, por outras razões, na Finlândia. Por mais um regresso inconsciente a um antigo rito, uma árvore, sempre a mesma, no centro da terra onde moro, é coberta de tiras pelos rapazes, que as penduram em todos os seus ramos, mas que, por comodidade ou talvez por intenção escatológica, consistem de uma profusão de papel higiénico em vez das tiras de linho ou de papel de arroz próprias de outras civilizações. O que era fervor tornou-se troça. Neste grande país que se julga materialista, estes vampiros, estes fantasmas e esqueletos do carnaval de Outono, ignoram o que são: espíritos de mortos à solta que as pessoas alimentam para os enxotar com um misto de brincadeira e medo. Os ritos e as máscaras são mais fortes do que nós.
1982
Sem comentários:
Enviar um comentário