
Maria Zambrano, in A Metáfora do Coração e outros escritos
“O poeta não toma jamais uma decisão, é verdade. O poeta suporta unicamente este viver errante e como sem um lugar onde prender-se. Suporta o viver instante a instante, dependendo de outro a quem nem sequer conhece. Entrevê alguma coisa na névoa, e a isto que entrevê é fiel até à morte, fiel por toda a vida. E não lhe exige, como o filósofo, ver a sua cara. Não luta como fez Jacob com o Anjo. Aceita e até anseia ser vencido. […] Vagabundo, errante, não se decide nunca, por lealdade a obscuras divindades, com as quais nem sequer luta para lhes descobrir a cara. A poesia. Não se entrega como prémio aos que metodicamente a buscam, mas acorre a entregar-se aos que jamais a desejaram; dá-se a todos e é diferente para cada um deles. Certamente é imoral. É imoral como a própria carne.”
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