
A Vida, na sua sabedoria imensa, põe à nossa disposição toda a matéria de que necessitamos para nos reconstruirmos a cada instante. E o que é a reconstrução senão a hipótese de voltarmos a lugares sombra de modo a que os possamos iluminar.
Não temos que compreender tudo. Não temos sequer possibilidade, quando demasiado imersos mental e emocionalmente nas teias de uma situação, de engendrar uma compreensão. Não, nem sempre temos; o que, para determinadas naturezas, é extremamente doloroso. Mas “o tempo, esse grande escultor”, tem outras vias de apaziguamento. E o apaziguamento vence - temporariamente - a sombra (o que seria do ser humano sem sombra?).
É só deixarmo-nos ir. Aceitar. Aceitar Tudo - a queda livre; o despenhamento; o silêncio que se segue ao estrondo; as trevas; o desnorte; O caos.
Quis a Vida que a minha trajectória nestes dois últimos anos fosse um regresso ao antes e ao depois disso; levou-me pela mão a esses espaços para que me lembrasse como via antes e para poder ver o que não via quando os meus pensamentos se moviam em torno do círculo de giz. A Vida devolveu-me a liberdade e a leveza. E fui subindo pelos cambiantes da sombra. Voltei aos lugares onde caminhei de olhos fechados e vejo! Posso ver. E como gosto de poder ver.
Reescrevo esta carta, agora (dois anos depois, mas o que é o tempo?) que todo o ruído cessou, finalmente leve e liberta, finalmente com o distanciamento suficiente para encará-la como a última e serena comunicação, aceitando também que comunicação nem sempre é comunhão. Será contudo uma comunhão comigo.
“Obrigada pelo teu mail. Neste tempo suspenso em que tenho vivido, tempo de construção da Fuga nos escombros do Prelúdio, devolveu-me ao Tempo por um breve instante. Obrigada pelo Beethoven. É certamente um dos compositores que mais amo. Como te disse um dia, a Música dele, para mim, tem as suas raízes nos subsolos mais profundos que um ser humano tem possibilidade de suportar. Tudo começa e recomeça lá, sempre, numa espécie de caos primevo a que é urgente dar Forma, Ordem, Harmonia.
Depois de ter tocado a minha Avó pela última vez, de me ter despedido do seu corpo, na manhã do dia 17 de Dezembro de 1997, senti uma necessidade enorme de me sentar ao Piano e tocar o primeiro andamento da Sonata dita “ao Luar”. Ele é efectivamente uma espécie de meditação. Contém em si tudo – o luto e a despedida como Hino, um apaziguamento na dor mais profunda que, como tudo o que bate no fundo, tem o dom milagroso de se transmutar no seu contrário. E só depois dessa viagem/homenagem/louvor, entreguei o meu corpo e deixei que a minha alma entrasse por tempo indefinido no sono de que tanto necessitava. Foi essa a prova mais cabal do meu amor pela música desse homem que viveu no centro de uma Força imensa, ora sucumbindo, ora subindo com ela.
Fico feliz que estejas a conseguir viver aquilo que mais desejavas e felicito-te pelas tuas realizações. Que tenhas as celebrações que mereces junto dos teus familiares e amigos e que a tua vida continue a ser rica, cheia e feliz. Eterna e ternamente contigo.”
Explicit Deo Gratias
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