domingo, 28 de março de 2010

Mar Morto ou a Montagem

Há um fundo loiro, claro, de olhos azuis. Um fundo bonito, pelo ar tranquilo que confere ao plano, mas que não chega a ser serenidade. Ele é dotado de uma vontade – quer ser fundo. E, sem que perca esse ar de paisagem tranquila, mantém uma luta constante pelo domínio do espaço; atento às mais pequenas movimentações internas, ao formato, estende-se e contrai-se de modo a não deixar lugar a qualquer interferência, a qualquer elemento que perturbe aquilo que julga ser a plenitude do espaço. Este fundo busca a moldura - procura capturar o Tempo; anseia pelos limites definitivos que o possam eternizar.

E sobre esse fundo, tu. Num inquieto repouso que salta à vista no teu olhar e no teu sorriso petrificados. Na rigidez de toda a tua postura. A tua luta é com o espaço interno. Constróis e reconstróis o dique. Retocas a cada instante esses contornos que permitem o teu enquadramento nesse fundo. Precisas dessa imagem, desse formato.
Também tu estás disposta à moldura. Não a constróis pois esgotas-te em outra tarefa. Deixas que a construam. Olhas em tua volta e ele, o fundo, tranquiliza-te. Vês que cabes nele, tu, esse teu tu contornado. Ele dá-te a tua medida num espelho agradável onde vês reflectidos esses limites que talvez te salvem, que te vão salvando, pensarás tu.

É uma má composição, penso eu ao confrontar-me com a imagem. Uma montagem que não convence.

Entrevi-te em outro plano, em outras coordenadas – um Mar imenso no centro de uma clareira criada por um relâmpago que nos apanhou sem protecção numa Noite qualquer.

Será impossível morrer afogado nas águas do Mar Morto. Mas nele, tudo o que é Vida não cabe. É essa a sua forma de Salvação.

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