segunda-feira, 3 de maio de 2010

o corpo das palavras

Nada é inconsequente.
Todo o gesto é dotado de força
Assim como todo o não-gesto.

Um não-gesto não é inacção.
Um não-gesto é a negação de um gesto que urge
Uma força que implode
Implode em quem o nega e àquele a quem é negado.

Desta energia subtil a moral não dá conta.

Os textos, seja qual for a sua natureza, têm um corpo fluídico, um ante-corpo no qual se engendra o seu carácter.

Se mergulho na tristeza, afasto as palavras para que estas não sejam tomadas por ela.
Ou crio um espaço entre mim e a tristeza.
Um espaço que, não a retirando do meu horizonte, põe-na em perspectiva.
(uma pequena deslocação, um pequeno passo - atrás, à frente, ...)
Esse espaço, o espaço do meu encontro com a tristeza, é assim o corpo das minhas palavras. Palavras de um encontro com a tristeza, não palavras de tristeza.
(o Ar que vem de um Fogo que nasce da Água)

Quando o texto acaba, então, posso permitir-me a dissolução.

Mas existem palavras sem corpo. Palavras que não chegam a ser texto
(serão realmente palavras?)
Palavras sem Fogo e sem Água. Puro Ar, etéreo, sem "chão", sem consistência.
Porque o espaço do texto é um jogo de forças em equilíbrio ténue.
E há um ponto, um ponto onde ele se torna possível.
Se afastamos o olhar da emoção, as palavras são Ar. Se o olhar é fulminado pela emoção, as palavras são Água ou Fogo - dissolução ou exaltação extremas. Pura interioridade incomunicável, ou pura exterioridade.
E o corpo do texto, como todos os corpos, exige os quatro elementos. O equilíbrio entre os quatro elementos.
Falta-me falar da Terra. Falta-me sempre falar da Terra.
Corpo incompleto, este das minhas palavras. Corpo mutilado.
Corpo a que voltarei

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