quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As tuas mãos, Avó

A palavra é Milagre.
Para mim, que sinto a necessidade de (me) experimentar um pouco (n)os vários domínios criativos, a escrita é talvez, de entre eles, o mais complexo.
Escrever envolve uma alegria e uma dor imensas, lado a lado, como as duas faces do mundo - o dia e a noite.
Escrever implica-nos de uma maneira muito profunda. Há que escavar fundo para que a linguagem deixe de ser instrumento e passe a ser espelho. Difícil - porque é com essa mesma linguagem que vivemos o quotidiano no que ele tem de superfície. Difícil - porque temos que procurar destruir em nós as molduras com que revestimos certas vivências de modo a podermos suportá-las.
É a hora da verdade - de uma verdade muito particular.
E, por outro lado, para quem se habituou a estes mergulhos, para quem (se) busca Luz nesta procura, difícil é também não escrever. Há uma espécie de escuridão que se vai alastrando. Uma escuridão densa, com peso e volume – real.
Faz hoje doze anos que a minha Avó partiu. Nunca consegui escrever sobre “isso”. Sobre o grande e eterno Presente que ela é na minha vida. Sobre esse Ensinamento único que a sua Vida e Morte foram para mim. Várias vezes tentei. Esperei a distância. Mas o tempo sempre desaparece quando procuro afastar este silêncio.
Todos os anos, neste dia, cumpro uma espécie de ritual. Uma homenagem qualquer. Preciso de rituais, sempre precisei. Mas hoje, após doze anos, sinto esse dia mais presente que nunca. Talvez seja um final de ciclo qualquer. Talvez tenha a ver com Saturno, esse Senhor do Karma, deus do Tempo.

Ainda não é tempo de” manejar as palavras" 1 e de poder dizer como tenho em mim essas tardes em que, deitadas na tua cama, de mãos dadas, rezávamos a um Deus que era só teu. De como conversávamos sobre o teu passado, sobre a minha infância, sobre a vida, numa total ausência de constrangimentos. De como nos ríamos de tudo apesar das tuas dores e da minha dor.
Ainda não é tempo de te dizer, Avó, como me ensinaste também o que é envelhecer. Como são tão mais bonitas as pessoas no princípio e no fim. Como estão tão mais próximas da verdade da vida quando sabem que são vulneráveis. E como se pode crescer sabendo isso. E tu conheceste-me, Avó. Conheceste-me no meu íntimo, sem necessidade de explicações ou de palavras.
A Vida e a Morte estarão separadas por um véu, Avó. Eu sei. Mas hoje preciso dizer-te que sinto a tua ausência. A tua ausência física. Que me dói a saudade de te abraçar. Que sinto ainda as minhas mãos percorrerem o teu corpo, no fim, de uma fragilidade impossível. E que as tuas mãos minha querida Avó, foram as mãos mais bonitas que alguma vez apertaram as minhas.

Mas ainda não é tempo. Ainda não é tempo de me embrenhar em palavras. Ainda não o conseguiria suportar.
Comprei uns sacos de areia colorida. Umas pedras, umas conchas. Um recipiente bonito.
Construirei algo que virá, com certeza, do coração da Memória.

1“[M]anejar as palavras, tomar-lhes o peso, explorar-lhes o sentido, é uma maneira de fazer amor, sobretudo quando o que se escreve é inspirado por alguém, ou prometido a alguém”. (Marguerite Yourcenar, in O quê? A Eternidade)

6 comentários:

Onix disse...

Linda, as tuas palavras fizeram descer lagrimas pelo meu rosto... por senti-las também como minhas.
Beijo grande,
Manela

Madalena Rocha disse...

Escrever, escrever, escrever - dar forma a tudo o que em nós é vida - uma loucura, uma doença, uma necessidade, uma terapia.
Obrigada Manela, sei que é uma experiência afim.
Beijo grande

Boo disse...

Que bonito!! :)

Beijo grande

Boo disse...

Que bonito!!

Beijo grande :)

Madalena Rocha disse...

Beijo grande também para ti
(e falta a convocatória para café)
:)

Boo disse...

Sim... sei que estou em falta e ainda não me esqueci..os dias têm passado um pouco a correr, apesar de não ser desculpa.... :-P

Passando agora a inauguração da exposição (podias aparecer) e a escritura da venda da casa velha, eu prometo convocar-te!! ;)

Beijocas grandes