quinta-feira, 18 de junho de 2009

Do Fernando e para o Fernando, com Ternura


A sua irmã, pela sua doce voz, na manhã deste dia que se anunciava triste.

O Istmo

O organdi da saia amarrotado
e um navio, ao longe, envolto em fumo.
A bailarina chora e há um deck
onde passeia um jovem mal pintado
e se servem refrescos de mentol.

O barco ao longe é o fumo do cigarro.
O organdi, papel sacrificado em prosas,
líricos bocados de viagens e suor
aos arquipélagos perdidos na memória.

Da Juventude

I

Na sossa solidão, na nossa casa,
à beira de uma porta quase aberta,
enquanto a nossa mãe tecia a estrada
que recusar seria a nossa perda.
Assim na quietude que só espera
o fogo de um olhar o gesto impuro,
a paz era uma dor e uma quimera
a contornar o medo do futuro.


Metaformose

Um dia, meu amor, virei toupeira
e fiz um cerco subterrâneo às violetas.
Era intenso o desejo de comê-las
mas comendo, não podia ser toupeira.
Então voltei ao pé de ti e fiz-me gente
o que foi a mesma coisa que perder-te.

Ana Maria Ferreira
in Arquipélagos da Memória,
a Torre de Babel e outras histórias.

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